Depois de meses trocando olhares no elevador, entre bons
dias e boas tardes... De tanto puxar assunto sobre o tempo que Frederico
finalmente tomou coragem e a convidou para tomar um cafezinho em seu
apartamento.
_ Cafezinho eu adoro!
Replicou sorridente a moça que morava no apartamento da
frente, já virando o mastro e tomando rumo de outra casa que de estar tão perto
e parecer tão longe só agora conseguia alcançar.
Frederico tomou a frente e se apressou em contornar a moça,
abrindo a porta e se desculpando pela louça. Primeiro perguntou seu nome como
se já não o soubesse e ela tímida revelou: Elizabete! Mas pode me chamar de
Bete! Ele sorriu pela primeira vez para Bete e depois acomodou sua visita com
cuidado na mesinha redonda da cozinha e ali ficou admirando seu feito. Quem
dera tão bela loira no meu leito!
_ E o café? É pra hoje?
Brincou Bete delicada como quem já se sente situada. Causando em Frederico uma onda de calor, já que de café nunca gostou, e a muito se
esquecera onde pusera seu coador.
_É pra já ! Respondeu sem pestanejar...
Depois de 30 minutos e muito falatório, eis que quase que
por um milagre surgiram dois cafés
duvidosos sobre a mesinha .Ele logo advertiu:
_ Não sei se ficou bom, mas pela demora, espero que tenha
chegado em boa hora!
Depois de beber um gole pequeno, sob o atento olhar de
Frederico, sua convidada tossiu um pouco e quase limpou a garganta, depois
levantou os olhos molhados com admiração:
_ Não acredito! Essa não... Só conheço uma pessoa que toma café
assim com tanto pó e sem nenhum torrão de açúcar! Eu! Não é uma muita coincidência?
O anfitrião aliviado suspira feliz dando um gole no seu café,
e por um triz não cospe todo líquido, engasgado com sabor amargo na língua.
_Eu sei! Também fiquei emocionada! Nosso encontro já era
coisa traçada!
Depois de 06 meses ela se mudou para o apartamento dele.
Estavam apaixonados e Bete sempre repetia
aos amigos a história de como um café amargo os unira e que dali pra
frente só ele faria seu café como prova
de amor.
Frederico engoliu vinte anos de café como quem engole um
remédio necessário e acreditava que era um preço justo a pagar para ficarem
juntos.
Até que um dia não suportou e morreu! Num domingo de tardezinha ... Bebendo
café, de uma úlcera repentina que já massacrava seu estômago que de tão judiado
não percebeu a diferença de doença e resignação. Morreu o pobre! Assim de mentirinha boba que foi acumulando no meio
de sua barriga.